9.4.08

Project Da Vinci: uma experiência

Ao tomar posse do cargo de Vice-Presidente para o Marketing da Dell em Abril do ano passado, Casey Jones constatou que a empresa recorria aos serviços de mais de 800 diferentes prestadores de serviços de marketing em todo o mundo.

Não seria mais vantajoso concentrar tudo isso num único fornecedor? O resultado foi a criação de uma nova agência, a Project Da Vinci, criada pelo grupo WPP para trabalhar exclusivamente para a Dell. O orçamento anual que lhe foi confiado ascende a 4,5 mil milhões de dólares.

O que irá ganhar a Dell com a mudança? Primeiro, simplifica extraordinariamente a estrutura do seu marketing interno, no qual muita gente assegurava o relacionamento quotidiano da empresa com as agências. Segundo, cria condições para uma abordagem mais coerente tanto entre as diversas disciplinas de comunicação como de país para país. Terceiro, espera que uma agência que a sirva em regime de exclusividade tenha condições para se focalizar inteiramente nas suas necessidades. Finalmente, é natural que a Dell consiga poupar muito dinheiro.

Ao fim e ao cabo, é como se a Dell criasse um departamento especializado para tratar de toda a sua comunicação de marketing, só que, em vez de o internalizar, opta por recorrer ao outsourcing.

É claro que, ao passar de 800 para 1 agência, os gestores da Dell afastam-se do dia a dia do que fazem os publicitários que trabalham para a empresa. A micro-gestão é substituída pela macro-gestão, ou seja, instruções e controlos específicos e frequentes dão lugar a uma acompanhamento mais distante.

A agência responderá apenas por resultados globais. O controlo do processo contará pouco, dado que os gestores da Dell tenderão a envolver-se menos no trabalho quodiano de criação e desenvolvimento das campanhas.

Isso implica, todavia, que a agência se desinteressará de tudo aquilo que conta pouco para efeitos da avaliação. Na prática, não fará realmente o trabalho de algumas das 800 agências que se ocupavam de minudências tais como, por hipótese, a publicidade num país longínquo como Portugal.

Prevejo por isso que a breve trecho a Dell voltará a contratar agências pequenas especializadas em determinadas áreas, até porque todos os dias surgem novos instrumentos de comunicação que apenas um pequeno número de pessoas domina.

Resta saber se um negócio tão criativo como este pode ser gerido à distância como gostaria Casey Jones. Parece-me que não. Prevejo que, em consequência da nova organização do marketing da Dell, os conflitos entre agência e anunciante só não irão em crescendo se a Da Vinci se resignar a um padrão de criatividade francamente medíocre, um resultado tanto mais provável quanto é facto que uma agência com um só cliente perde tudo se perder esse cliente.

Um dia, alguém na Dell compreenderá que a partilha de uma agência com outros anunciantes não tem só inconvenientes - longe disso - visto que insights surgidos ao serviço de um deles são frequentemente transferidos para outro. Ao fim e ao cabo, criatividade é precisamente em grande parte a aplicação de ideias conhecidas a novas circunstâncias.

Poder ser que a criação da Project Da Vinci seja uma ideia inovadora com futuro. A mim, porém, parece-me que resulta mais do desejo de controlo de uma organização diversificada e globalizada de um Vice-Presidente recém-chegado do que de um correcto entendimento do valor acrescentado que as agências de comunicação de marketing podem trazer para o negócio da Dell.

3.4.08

Marketing Ombro a Ombro



Esta é uma apresentação que uso frequentemente para explicar o que é o Marketing Ombro a Ombro e o que faz a Ology.

2.4.08

Hal Riney

Hal Riney morreu no mês passado com 75 anos de idade. Eis alguns dos spots que ele criou em 1986 para a hilariante campanha de lançamento do Bartles & Jaymes Premium Wine Cooler.







Ideias atraem ideias


A Starbucks necessita desesperadamente de ideias para recuperar protagonismo e relançar o negócio.

Teve então uma ideia: lançar uma rede social para recolher as ideias dos consumidores, o site My Starbucks Idea.

Quem estiver interessado pode propor as suas ideias para melhorar os produtos, a experiência ou o envolvimento da Starbucks. Alternativamente, pode também discutir as ideias dos outros e votar nas que mais lhe agradam.

Noutra página do site, intitulada Ideas in Action, que funciona como um blogue, os visitantes podem saber como estão a ser aplicadas as melhores ideias recolhidas pela Starbucks.

Grande ideia.

Morrer com estilo

Se tem pressa de morrer mas quer fazê-lo com estilo, pode agora encomendar o seu Requiem personalizado a uma empresa austríaca especializada, a Requiem for You. Com credenciais de renome como Haydn, Mozart e Beethoven, a Áustria pode legitimamente invocar uma designação de origem relevante e credível dentro do género.

27.3.08

Tem a palavra o turista

Eis o testemunho de um turista britânico que recentemente fez férias num hotel algarvio de Olhos d'Água:
"The first problem we noticed as we approached the hotel in the Thomson coach was that the last half mile to the hotel was through the middle of a building site. The newly built Riu club hotel was on one side and the recently sold and now being refurbished Riu Falisia (now Porto Bay) on the other. The noise did not intrude into the hotel but as we discovered this was the only way to walk to the village and shops etc. It was dusty and full of trucks and builders vans manoeuvring for a large part of the day so not a pleasant or safe walk. At night it was badly lit and the work went on until at least 21.00."
Aliciante, não é verdade? O problema é que agora, com sites como o Tripadvisor, todo o mundo tem conhecimento instantâneo das experiências de mau serviço turístico.

25.3.08

Não há nada como um bom argumento de autoridade

O inimitável Maurice Saatchi - ex-co-chairman do Partido Conservador Britânico - assina no Financial Times de hoje um magnífico artigo de opinião intitulado "Business and politics are worlds apart", que fui encontrar aqui. Eis o parágrafo final:
"Here, then, is the crucial difference between business and politics. In business, the motive of the provider of the product is beside the point. In politics it is the whole point. It follows that politics is not a market and a political party is not a brand. As a party is not a brand, business disciplines do not apply. So next time you hear it said: “If only politicians could be more businesslike”, you can say that business has as much to do with politics as a cheese knife has to do with the man in the moon."
Ando há anos a dizer isto, mas quem sou eu para ser escutado? Mais do que um jornalista desinteressou-se do meu depoimento ao constatar que não partilho do entusiasmo generalizado dos meus confrades de profissão pelo assim chamado marketing político. "Que tipo mais ignorante!" terão eles certamente pensado.

20.3.08

Igual e diferente

Há tempos casquei no Paul Arden pela apologia que ele faz da diferença pela diferença no seu livro Whatever You Think, Think the Opposite. Parecia-me - e parece-me - isso uma perfeita tolice.

A grande maioria das pessoas que fizeram coisas verdadeiramente inovadoras não estava à procura de ser diferente, apenas de resolver um problema da melhor maneira possível. É conhecida a afirmação de Mozart: "Nunca tive a mínima intenção de ser original."

É verdade que os estereótipos nos conduzem directamente à banalidade. Mas o remédio para isso não está em procurar ser diferente, está em recusar o esforço para ser igual.

Não sei se me faço entender.

19.3.08



Estou deliciado com este livro do Menna Barreto: Agência de Propaganda e as Engrenagens da História. Não percam se encontrarem por aí.

TransPromo

Voltando àquele assunto dos stuffers, vim a saber que há agora uma coisa chamada TransPromo que foi inventada a pensar nesse problema.

Então é assim: na Europa Ocidental foram em 2006 emitidos 132 biliões de documentos transaccionais dirigidos a consumidores, incluindo facturas, extractos de conta, notificações e registos comerciais de todos os tipos.

Vai daí, pergunta-se por que é que essas papeletas não poderão também ser utilizadas para finalidades promocionais, e da resposta afirmativa a esta questão surgiu o tal TransPromo.

Só para começar a abrir o apetite, o interessante da coisa é que - diz quem sabe - 95% dos documentos transaccionais são abertos e lidos, e 85% são lidos mais do que uma vez. Acresce que os destinatários gastam em média entre 1 a 3 minutos com cada um deles.

Aparentemente, está o resolvido o problema de agarrar a atenção do público (pelo menos no que ao suporte propriamente dito diz respeito), não é verdade?

E vai daí? Esperem um bocadinho que eu já volto.

Ora toma

A General Motors, o terceiro maior investidor em publicidade nos EUA, e um dos maiores do mundo, anunciou que nos próximos três anos reorientará progressivamente metade do seu orçamento para marketing one-to-one e digital.

18.3.08

Não esquecer o valor de longo prazo do consumidor

No final de Fevereiro, uma senhora que deseja manter o anonimato recebeu um envelope contendo uma oferta de 1€ válida na compra de um qualquer pack Magnum no dia 1 de Março (segundo a marca, o dia "mais quente do ano", vá-se lá saber porquê).

O folheto que divulga a promoção inclui uma foto de Eva Langoria dando uma trincadinha num Magnum Mini, outra foto de quatro packs Magnum e um pauzinho de madeira.

Enviar de propósito um mailing para distribuir vales de 1€ pelo correio já me parece uma coisa um bocadinho estranha. Mas a ideia de incluir o pauzinho, então, ultrapassa-me completamente.

Deve ser para "chamar a atenção", só que alguém deveria fazer as contas ao custo de uma coisa dessas. Reparem: primeiro, há o custo do folheto, do envelope, do enderaçamento, do envelopamento e do porte postal; depois, há ainda o custo do pauzinho, sua aplicação no folheto e eventual acréscimo de porte postal; finalmente, temos a recolha e o tratamento dos vales.

No final disto tudo, sobra 1€ para o consumidor. Dramático, não é verdade?

Outra forma de pensar nisto: o valor de longo prazo de um consumidor de gelados é certamente muito baixo, dada a reduzidíssima margem de lucro de cada venda individual. Quantas vendas adicionais serão necessárias para pagar a graça do pauzinho? (Isto partindo do princípio de que o pauzinho tem alguma graça.)

Este caso é relevante porque se trata de um erro muito corrente em bens de grande consumo. Fazer marketing relacional desta maneira é ruinoso para as marcas.

Ajudar o consumidor

Matthew Creamer assinou na Advertising Age um artigo que critica a atitude anacrónica de tantos gestores de marketing e comunicação que continuam a encarar a internet como apenas mais um meio para veicular "publicidade" intrusiva:
Trends like those listed suggest the possibility of a post-advertising age, a not-too-distant future where consumers will no longer be treated as subjects to be brainwashed with endless repetitions of whatever messaging some focus group liked. That world isn't about hidden persuasion, but about transparency and dialogue and at its center is that supreme force of consumer empowerment, the Internet.
E ainda:
"People have to think about advertising differently," said Trevor Kaufman (…). "Advertising is becoming not just about messaging but providing value to customers. Functionality has often not been the role of advertising." (…) "It's easy for clients and agencies to think about banners and email because buying banners is like buying outdoor and email is like direct," said Mr. Kaufman. "That is very different than nurturing the community of your customers, providing great content or executing transactions."
Ajudar o consumidor a comprar, em vez de ajudar o vendedor a vender... Que ideia tão estranha, não é?

13.3.08

Bons tempos...

O fim de uma era?

Foi preciso o PSD mudar o logotipo para toda a gente finalmente se aperceber do absurdo que tantas vezes inspira este tipo de iniciativa. Tendo em conta o habitual reflexo de manada (bandwagon effect) é bem capaz de se gerar agora um preconceito contra as operações de rebranding, mesmo quando elas se justifiquem.

A regra nº 1

É a primeira regra do anunciante português, seja um banco, uma operadora de telemóveis ou um partido político:



"Quando não há nada a dizer, muda-se o logotipo".

11.3.08

10.3.08

Uma fábula contemporânea

Há dias, entusiasmei-me ao tomar conhecimento do Project Apollo, o mais avançado serviço single-source até à data, destinado a monitorizar os comportamentos de compra de 5.000 lares americanos e a relacioná-los com a sua exposição aos media.

O sistema baseia-se na captação de sinais áudio codificados por um pequeno dispositivo que os membros do painel transportam consigo para toda a parte. Permite, assim, registar não só a exposição a programas de televisão e rádio tanto no lar como fora dele, mas também a sites na Internet, a vídeo-jogos e a material de ponto de venda no retalho.

Por outro lado, o painel de consumidores associado regista toda a informação sobre datas de compra, locais de aquisição, unidades compradas, dimensões das embalagens, pagamentos com cartão de crédito, promoções de preço e total gasto na visita ao supermercado.

Os painéis single-source permitem medir com muito mais rigor a eficácia da comunicação de marketing. A sua utilização permitiu desfazer mitos muito comuns do planeamento de meios, tais como o da necessidade de um mínimo de três exposições para a publicidade ser eficaz. O painel do Project Apollo é de longe o mais poderoso, pelo que as expectativas são elevadas.

Na última Conferência da ESOMAR, que teve lugar em Junho de 2007, na cidade de Dublin, Donald Gloecker (Procter & Gamble) e Leslie Wood (LWR) entusiasmaram a assistência com a sua apresentação dos resultados já alcançados pelo Project Apollo.

No passado dia 25 de Fevereiro, porém, a Arbitron e a Nielsen, que até então haviam investido 30 milhões de dólares no projecto, anunciaram a sua suspensão. Justificação: impossibilidade de persuadir um número suficiente de empresas a subscreverem o serviço.

A tecnologia disponível permite resolver muitos problemas de monitorização do comportamento dos consumidores. Infelizmente, os custos envolvidos permanecem demasiado elevados.

6.3.08

Só por curiosidade

Millie Olson, acerca da dificuldade que as agências têm em saber o que os seus concorrentes fazem, como organizam as suas apresentações e porque ganharam este ou aquele concurso:
It's kind of like sex. You imagine, but can't really know what other people do behind closed doors. So who knows if what you're doing is cool or weird or completely banal.

What if we borrowed from presidential politics or professional sports and insisted that competing for accounts be open and transparent? That we see our competitors' presentations, written and spoken? We might even have debates...
Muitas vezes me coloquei estas questões quando trabalhava do lado das agências. Agora, porém, encontrando-me frequentemente do lado dos anunciantes, satisfiz por fim a minha curiosidade...

Prada: Trembled Blossoms