12.5.05

Marcas entre aspas

A publicidade existe para apoiar as marcas. Ninguém precisa tanto de apoio como as marcas portuguesas. Vai daí, faz-se uma campanha de publicidade a apoiar as «marcas portuguesas». Elementar, não é?

Eu, no entanto, não consigo perceber muito bem que efeitos se espera que os tais anúncios produzam. É para passarmos a escolher o que compramos em função de serem ou não marcas portuguesas? Tudo bem, se for uma marca de vinho ou de azeite; na maior parte dos outros produtos, é-me perfeitamente indiferente a nacionalidade da marca. Para deixarmos de usar as marcas não portuguesas? Era impossível. Para nos enchermos de orgulho por haver gente em outros países que usa marcas portuguesas? Parece-me um objectivo um bocadinho provinciano, e que, mesmo que seja atingido, não compensa o investimento. Ou, simplesmente, para ficarmos a saber que há uma comissão criada para tratar do assunto, e que essas pessoas já estão a fazer qualquer coisa – no caso, e como sempre, uma campanha publicitária?

No meu modesto entender, a melhor maneira de as «marcas portuguesas» se promoverem é começarem a existir. Para que promover as «marcas finlandesas»? Basta que exista a Nokia. "Marcas espanholas"? A Zara, a Mango, a Repsol, o El Corte Inglés tratam disso melhor do que qualquer campanha governamental. Enquanto Portugal não tiver marcas dessas, qualquer campanha é inútil. Quando as tiver, a campanha já não faz falta.


* Isto das aspas é um truque que aprendi com o Vasco Pulido Valente. Dá à prosa aquele tom desdenhoso e só para iniciados que cai sempre bem.

2 comentários:

Nuno Lisboa disse...

Do lado de cá também já estivemos diante do mesmo problema. A única marca genuinamente brasileira que se faz conhecida no mundo é o samba. O futebol também o seria, mas os ingleses já a registraram. O que não significa que podemos fazer melhor do que eles. E o que significa que, numa espécie de revés, os ingleses também possam fazer um samba melhor do que o nosso. O que quero dizer é que num mundo cada dia mais globalizado forçar o crescimento de marcas nacionais é algo artificial e, tomando emprestado as suas palavras, provinciano. Um certo presidente brasileiro criou a reserva de mercado para a informática, como forma de proteger e desenvolver nossa indústria de computadores. O resultado: atraso tecnológico. Nada forçado pode dar resultado por muito tempo. Penso eu.

João Pinto e Castro disse...

Apoiado.

João Pinto e Castro